AUTORIA

Mitchell Dutra

TRADUÇÃO

GERENTE RESPONSÁVEL

DIRETOR RESPONSÁVEL

Eduardo Pozzi

REVISÃO

Ana Carolina Chianello

A crescente demanda da sociedade por um fornecimento de energia mais confiável, especialmente diante de eventos climáticos extremos, evidencia a urgência de fortalecer a resiliência no setor elétrico, principalmente no sistema de distribuição. Esse cenário revela não apenas a necessidade de garantir continuidade e segurança no serviço, mas também um espaço relevante para aprimoramento regulatório, condição essencial para equilibrar as expectativas dos consumidores e a previsibilidade operacional e financeira das distribuidoras.

Em resposta a esse contexto, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) estruturou um processo de aprimoramento regulatório que através da Consulta Pública nº 32/2024 e da Nota Técnica Conjunta nº 14/2025 que culminaram na RESOLUÇÃO NORMATIVA ANEEL Nº 1.137, DE 21 DE OUTUBRO DE 2025. As novas diretrizes se organizam em cinco eixos centrais: o Indicador DISE, que define metas de recomposição em situações de emergência; os Planos de Contingência Operacional (PCO), que fortalecem a capacidade de resposta das distribuidoras; o Plano de Manejo da Vegetação, voltado à mitigação de riscos na rede; a melhoria da comunicação e da interação institucional com o poder público, com protocolos e regras de colaboração; e a melhoria da comunicação com o público consumidor de energia elétrica, com a melhoria dos canais de comunicação e regras para divulgação da situação em crise incluindo uma API de dados para ampliar a transparência e o monitoramento em tempo real. Juntas, essas medidas representam um avanço significativo na resiliência do setor elétrico brasileiro e estabelecem um novo padrão de eficiência e previsibilidade regulatória.

O Contexto Regulatório: A ANEEL e o Alinhamento Estratégico com a Confiabilidade

O movimento regulatório da ANEEL foi motivado pela necessidade de alinhar o setor elétrico às expectativas de mercado por maior confiabilidade, especialmente em face de eventos de alta severidade. O objetivo é o aperfeiçoamento da regulação, visando o incremento da resiliência do setor elétrico brasileiro frente a eventos climáticos severos.

A Nota Técnica nº 14/2025 analisou as contribuições de um amplo espectro de stakeholders, revelando dois eixos estratégicos: de um lado, a demanda social por maior confiabilidade do fornecimento de energia como um recurso crítico; de outro, a necessidade das distribuidoras por previsibilidade de custos, prazos de adequação e o reconhecimento de eventos de força maior.

Os eixos temáticos centrais da REN Nº 1.137/2025, que marcam tendência na resiliência do setor elétrico brasileiro, incluem:

  • A implementação do Indicador DISE e o regime de compensação ao consumidor mesmo em situações de emergência.
  • A revisão e o aprimoramento dos Planos de Contingência Operacional (PCO).
  • A gestão do Plano de Manejo da Vegetação e a interação institucional com o poder público (IPP).
  • O aprimoramento da comunicação com o poder público em cenários de crise.
  • O aprimoramento da comunicação com os consumidores de energia em cenários de crise.

Ao consolidar as novas regras, a ANEEL atendeu a uma demanda crescente da sociedade por maior confiabilidade no fornecimento de energia, impulsionada pelos impactos recentes de eventos climáticos extremos. A nova regulação impõe às distribuidoras o dever de adaptação, assumindo custos e responsabilidades adicionais, mas também oferece um avanço ao estabelecer critérios mais claros para situações emergenciais e incentivar a cooperação com o poder público — elementos que se esperam possam fortalecer também a atuação das distribuidoras com melhora na comunicação com a sociedade e mitigação de riscos relacionados à percepção pública e continuidade do negócio no longo prazo.

O Indicador DISE: A Nova Métrica de Desempenho em Resiliência

A novidade em termos de indicadores regulatórios para mensurar a resiliência do setor elétrico brasileiro é a introdução do DISE (Duração da Interrupção Individual em Situação de Emergência). O indicador foi desenhado para estabelecer metas para a recomposição do serviço após eventos climáticos extremos, definindo Service Level Agreements (SLAs) máximos de restabelecimento: 24 horas para áreas urbanas e 48 horas para áreas rurais.

A sua implementação requer que as distribuidoras concluam sua adaptação em um prazo de 180 dias após a publicação oficial da Resolução Normativa, com aplicação retroativa em 60 dias à publicação. Este indicador representa uma mudança de paradigma, pois direciona o foco para a qualidade do serviço em momentos críticos, que anteriormente eram expurgados dos indicadores tradicionais (DEC e FEC) por se tratar de situações emergenciais.

O Desafio Operacional | Manejo Vegetal e a Gestão de Interfaces: O manejo vegetal emergiu como um dos principais desafios operacionais na CP 32/2024, sendo um fator crítico para a resiliência do setor elétrico brasileiro. A vegetação próxima às redes é uma das causas de interrupções em eventos climáticos, e a ANEEL buscou estabelecer diretrizes mais claras para as distribuidoras.

Pilares Operacionais da Resiliência | Planejamento, Comunicação e Inovação Tecnológica: Além do DISE e do manejo vegetal, a ANEEL estabeleceu novos requisitos operacionais para o fortalecimento da resiliência do setor elétrico brasileiro.

Planos de Contingência Operacional (PCO): As distribuidoras devem promover a revisão e o upgrade de seus PCOs para incorporar novos requisitos, incluindo programas de treinamento e canais de divulgação. O PCO revisado deve ser disponibilizado em plataforma digital, acompanhado de um plano de monitoramento climático e preparação para emergência, no prazo de 90 dias.

Comunicação e Transparência com Stakeholders: A comunicação em cenários de crise é um ativo estratégico para a resiliência do setor elétrico brasileiro. A nova regulação exige:

  • Comunicação Institucional: Estabelecimento de protocolos de crise, canais de comunicação e regras de engajamento com o poder público. A ANEEL exige a implementação de uma API de dados de crise em 60 dias para facilitar a interlocução centralizada.
  • Comunicação com o Consumidor: Assegurar a transparência e a agilidade na informação. As distribuidoras devem reportar interrupções conhecidas em 15 ou 60 minutos e manter uma plataforma digital com ocorrências atualizadas a cada 30 minutos. A ANEEL manteve a exigência de visualização das interrupções por bairro, priorizando a clareza da comunicação com o público geral.

Mecanismo de Cessão Emergencial de Recursos: A Nota Técnica nº 14/2025 também validou o mecanismo de cessão emergencial de recursos entre distribuidoras, classificando-o como um recurso de última instância para eventos de grande porte. A ANEEL ajustou a redação para salvaguardar a distribuidora cedente, determinando que o apoio emergencial não pode comprometer significativamente o atendimento na área de concessão.

Alavancando a Conformidade em Vantagem Competitiva: O Framework de Resiliência da BIP

As novas diretrizes da ANEEL, embora representem um desafio de compliance, marcam uma tendência clara no setor e uma oportunidade para atuar com eficiência buscando gerar mais valor para o negócio pela por três principais fatores:

1) prontidão operacional para crise e atuação com base em dados

2) comunicação eficaz com a percepção pública da concessão

3) rastreabilidade da atuação conjunta junto ao poder público sobre a vegetação e a rede em situações de emergência. 

O framework de resiliência da BIP, por exemplo, estrutura a resposta a eventos climáticos em três níveis de atuação coordenados: estratégico, operacional e tático. Este modelo é suportado pelo conceito de um hub de informações integrada, que promove a integração de dados de estudos de rede, informações climáticas, mapeamento de riscos e dados históricos.

A consultoria especializada atua como um catalisador de transformação, auxiliando as distribuidoras nos diferentes drivers da ANEEL para a Resolução Normativa nº 1.137 com diferentes iniciativas de curto e médio prazo para garantir a conformidade:

Driver ANEELIniciativas para o curto prazoIniciativas médio prazo
Compensação ao consumidorCálculos do novo indicador DISE (interno, ANEEL). Calculo do impacto técnico-financeiro potencial em grupo multidisciplinar.Garantia da conformidade contínua de políticas, processos e procedimentos, mapeando e priorizando. Impacto operacional reduzido. Novas diretrizes de atuação em campo.
Plano de contingência operacionalNovo PCO com RACI e fluxo regional para COI, Sala de crise, Restauração. Novo protocolo de despacho emergencial. Plano de monitoramento do clima e orientações ao público em site.PCO integrado aos fluxos do negócio (processos, pessoas, materiais). Plugar ferramenta BIP de acompanhamento da prontidão para crise eprazos na execução do PCO.
Plano de manejo da vegetaçãoNovo plano de manejo com entradas de informação, ações e saídas para o manejo da vegetação. Mapa de interações com o poder público (IPP). Estrutura de registro de IPP para colaboração.Plugar ferramenta BIP de workflow interno/poder público para controle, rastreio e reporte. Manejo otimizado com base em dados/crowdsourcing.
Comunicação com o poder públicoNovos protocolos de crise, meios de comunicação e regras de engajamento na crise. Plugar modelo BIP de criação de API para envio ANEEL.Plugar BI dinâmico BIP para acelerar a criação de uma interlocução centralizada com o público e IPP em situações de crise.
Comunicação com o públicoAssegurar cumprimento de canais (SMS, app, site) com informação dentro de prazos regulamentares com/sem causa conhecida (15/60min).Funções do site integradas e automatizadas. Indicadores de cumprimento, satisfação e percepção. Plugar modelo webscraping BIP para análise de sentimento público

Assim, a integração de expertise setorial e inovação tecnológica permite que as distribuidoras maximizem a previsibilidade regulatória, a inteligência de campo e a automação integrada, entregando compliance e eficiência com o mesmo investimento.

Case de Sucesso: Smart Retention – Otimização Preditiva do Despacho Operacional

Em operações de utilities elétricas, a gestão do despacho de campo torna-se um ponto nevrálgico quando o volume de alarmes e tickets cresce abruptamente, sobrecarregando o centro de controle. O projeto “Smart Retention” endereçou a fragilidade de um modelo de retenção de tickets (via ServiceNow) que era predominantemente determinístico. Essa abordagem, baseada em regras manuais estáticas, mostrava-se incapaz de se adaptar dinamicamente a eventos de grande escala, resultando em uma eficácia subótima (variando de 48% a 58%) e no risco de despachar equipes desnecessariamente ou violar SLAs em momentos críticos. A oportunidade estratégica era clara: evoluir de um sistema reativo para um modelo preditivo que trouxesse inteligência e capacidade de resposta adaptativa.

A solução substituiu as regras estáticas por um modelo de Machine Learning focado em determinar o “Best Retention Time” (Tempo Ideal de Retenção) para cada evento de rede. Em vez de tratar todos os alertas de forma similar, o modelo aprendeu a identificar padrões complexos que distinguem falhas transitórias (com alta probabilidade de auto-normalização, comuns na rede elétrica) de falhas persistentes que exigem intervenção imediata. O escopo técnico visou maximizar a retenção inteligente de chamados, utilizando o ML para “filtrar o ruído” operacional mesmo sob condições de rede adversas, sempre assegurando a aderência rigorosa ao Service Level Agreement (SLA) para o despacho.

A implementação do “Smart Retention” elevou a maturidade da operação, permitindo uma gestão proativa em vez de reativa. O benefício mais impactante foi a capacidade de priorizar recursos de campo escassos (equipes e logística) exatamente onde eram mais necessários usando Inteligência Artificial. Em momentos de estresse sistêmico, o modelo assegura que o foco da intervenção humana seja direcionado às falhas estruturais, protegendo a estabilidade do serviço e melhorando o tempo de resposta para as ocorrências críticas. Isso não apenas otimizou custos, mas fortaleceu decisivamente a resiliência operacional da companhia.

Case de Sucesso: Transformação e Otimização com Infraestrutura de Medição Avançada (AMI) com Smart Metering

A implantação de Infraestruturas de Medição Avançada (AMI) tem se mostrado um componente essencial para elevar a resiliência operacional e garantir o cumprimento regulatório em empresas de distribuição de energia. A experiência da BIP nesse campo abrange toda a jornada de transformação — desde a definição estratégica até a execução em campo — assegurando que os investimentos em medição inteligente resultem em ganhos concretos de eficiência, confiabilidade e transparência regulatória.

Entre as principais competências aplicadas, destacam-se:

  • Arquitetura Regulatória e Estratégia de Dados: definição de modelos de negócio e análise regulatória alinhados às exigências da ANEEL e às metas de indicadores de continuidade (DEC, FEC), com modelagem de Business Case e avaliação de segurança e privacidade.
  • Integração TI/OT e Operação Inteligente: habilitação de redes e plataformas que conectam medidores inteligentes, sistemas de supervisão e centros de controle, criando uma base única para decisões em tempo real durante eventos climáticos extremos.
  • Gestão da Transformação e Governança Multifornecedor: estruturação de programas de larga escala, com governança integrada, interoperabilidade de sistemas e processos ágeis para atualização de firmware, gestão de alarmes e recomposição da rede.
  • Análise Avançada e Inteligência Operacional: uso de dados de alta frequência para detecção precoce de falhas, predição de contingências e otimização de manobras automáticas, ampliando a capacidade de resposta da rede.

Essas competências se traduzem em resultados tangíveis: habilitamos a implementação de mais de 3 milhões de Smart Meters apoiando €780 milhões em investimentos AMI para utilities de energia, gás e água. No contexto elétrico, os sistemas AMI permitem apoiar distribuidoras na redução de perdas técnicas e não técnicas, na melhoria do tempo de resposta a falhas e no cumprimento das exigências de monitoramento e continuidade do serviço. Em situações de contingência climática, o uso integrado dos dados de medição possibilita a priorização inteligente de equipes de campo, a restauração seletiva de cargas críticas e a manutenção proativa de ativos em risco, reforçando a capacidade das distribuidoras de operar com segurança, eficiência e conformidade.

Estes cases demonstram a capacidade de transformar requisitos regulatórios e necessidades operacionais em soluções tecnológicas e de processo que geram valor tangível, otimizando custos e melhorando a qualidade do serviço.

Fale com nossos especialistas e saiba mais sobre a nossa abordagem na prática.

Conclusão

A Resolução Normativa ANEEL nº 1.137/2025 marca uma tendência regulatória para o setor elétrico brasileiro, traduzindo em regras concretas o debate chave sobre a resiliência e suas implicações: previsibilidade, transparência e capacidade de resposta em cenários críticos. O cumprimento da resolução de resiliência não apenas redefine o papel das distribuidoras na gestão de emergências climáticas, mas também inaugura uma fase em que o desempenho operacional, a comunicação e o uso inteligente de dados passam a ser tratados como pilares de segurança energética nacional.

Mais do que um exercício de compliance, as novas exigências representam uma oportunidade real de fortalecimento institucional. Ao alinhar governança, operação e tecnologia, as distribuidoras podem transformar a conformidade regulatória em vantagem competitiva — reduzindo riscos, aprimorando a percepção pública e ampliando a previsibilidade de resultados em situações de estresse do sistema. A adoção de práticas como o monitoramento inteligente, a integração de dados climáticos e operacionais e a comunicação digital com stakeholders possui potencial de gerar valor sustentável, tanto para o negócio quanto para a sociedade. 

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