Nos últimos anos, o ambiente regulatório do setor financeiro ampliou o foco sobre governança, controles internos e qualidade da informação regulatória. A consistência dos dados enviados ao Banco Central deixou de ser apenas uma preocupação operacional e passou a ocupar papel central na supervisão prudencial.
Nesse contexto, a Resolução Conjunta nº 18/2025 (RC 18/2025) estabelece critérios objetivos para a qualidade das informações regulatórias e reforça a responsabilidade institucional sobre sua integridade e rastreabilidade.
Neste artigo, apresentamos os principais pontos da norma, seus impactos sobre governança e relatórios regulatórios e algumas reflexões da BIP sobre os desafios de adequação.
O que estabelece a Resolução Conjunta nº 18/2025
A Resolução Conjunta nº 18/2025 (RC 18/2025) estabelece requisitos formais para a qualidade das informações utilizadas em processos regulatórios no sistema financeiro.
A norma foi publicada pelo Banco Central em novembro de 2025 e entra em vigor em 1º de janeiro de 2026, com prazo de adequação até 31 de dezembro de 2026.
Ela se aplica às instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil.
Escopo e abrangência da RC 18/2025
A resolução abrange dados quantitativos e qualitativos, documentos e relatórios fornecidos em atendimento a exigências legais ou regulatórias.
O escopo não se limita apenas às informações enviadas diretamente ao Banco Central. Também inclui dados compartilhados no atendimento à regulamentação vigente, como aqueles utilizados em iniciativas regulatórias como Open Finance, ou informações trocadas entre instituições e seus clientes quando vinculadas a obrigações regulatórias.
Na prática, isso significa que a governança da qualidade da informação passa a abranger todo o ciclo de geração, tratamento e utilização dos dados regulatórios.
Pilares estruturais da Resolução Conjunta nº 18/2025
A norma estabelece quatro pilares estruturais para a gestão da qualidade da informação regulatória.
- Qualidade da informação
A RC 18/2025 define 12 dimensões de qualidade da informação, que devem orientar a medição, o controle e a geração de evidências sobre a confiabilidade dos dados utilizados em reportes regulatórios.
Essas dimensões estruturam o modelo de avaliação adotado pelo Banco Central para verificar a consistência e rastreabilidade das informações.
- Política de qualidade da informação
As instituições devem manter uma Política de Qualidade da Informação formalizada em documento único e segregado, integrada à estrutura de governança corporativa.
Essa política deve estabelecer, no mínimo:
- critérios de qualidade da informação
- definição de papéis e responsabilidades
- estrutura de controles e monitoramento
- elementos de documentação como dicionário de dados e regras de negócio
- Governança e responsabilidades
A resolução reforça que a responsabilidade pela qualidade das informações regulatórias é institucional.
O Conselho de Administração possui responsabilidade indelegável pela aprovação e revisão da política de qualidade da informação.
A Diretoria é responsável por garantir a implementação das dimensões de qualidade, realizar testes periódicos e comunicar eventuais deficiências identificadas.
Além disso, a norma exige a designação formal de um diretor responsável perante o Banco Central pela governança e qualidade das informações regulatórias.
- Monitoramento e reporte
A RC 18/2025 também estabelece a necessidade de monitoramento contínuo da qualidade dos dados regulatórios.
As instituições devem implementar mecanismos de testes periódicos, monitoramento contínuo e geração de evidências sobre a confiabilidade das informações utilizadas nos reportes regulatórios.
Além disso, deve ser elaborado um relatório semestral consolidado sobre governança e qualidade da informação, que deve ser mantido por pelo menos cinco anos e estar disponível para eventual revisão pelo regulador ou auditoria independente.
As 12 dimensões de qualidade da informação na RC 18/2025
Para orientar a avaliação da qualidade dos dados regulatórios, a RC 18/2025 estabelece doze dimensões de qualidade da informação, que estruturam o modelo de medição, controle e evidência exigido pelo Banco Central.

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Requisitos mínimos da Política de Qualidade da Informação
Um dos pilares centrais da RC 18/2025 é a formalização de uma Política de Qualidade da Informação, que deve estabelecer diretrizes claras para a produção, validação e monitoramento dos dados utilizados em reportes regulatórios.
Essa política deve estruturar os mecanismos institucionais que asseguram a qualidade das informações ao longo de todo o seu ciclo de vida — desde a geração dos dados até sua consolidação e envio ao regulador.
Entre os principais elementos esperados na política estão:
- definição das atribuições e responsabilidades das áreas envolvidas, incluindo a alta administração
- garantia de recursos humanos e tecnológicos adequados para gestão da qualidade da informação
- definição da arquitetura de dados e infraestrutura de TI utilizada na produção e validação das informações
- formalização de processos e procedimentos de elaboração, validação e aprovação das informações regulatórias
- manutenção de um dicionário de dados estruturado, contendo descrição de conteúdo, estrutura e formato das bases utilizadas
- implementação de mecanismos para monitoramento contínuo da qualidade da informação, incluindo testes periódicos
- definição de procedimentos para tratamento de irregularidades ou inconsistências identificadas
- realização de auditorias internas periódicas, com avaliação da aderência à política e implementação de melhorias
A formalização desses elementos permite que a instituição demonstre ao regulador que possui controles estruturados para garantir a consistência, rastreabilidade e confiabilidade das informações regulatórias.
Além disso, a RC 18/2025 reforça a importância da qualidade da informação como elemento central da supervisão prudencial. Informações que não atendam aos critérios mínimos definidos pela regulamentação podem gerar questionamentos do regulador, exigência de reapresentação de dados ou a necessidade de planos de ação para correção de inconsistências, ampliando a exposição das instituições a riscos regulatórios e operacionais.
A visão da BIP sobre a adequação à Resolução Conjunta nº 18/2025
A Resolução Conjunta nº 18/2025 estabelece um novo patamar para a gestão da qualidade da informação regulatória no sistema financeiro. A norma amplia o foco da supervisão prudencial para além da consistência pontual dos reportes, passando a exigir um modelo estruturado de governança, processos e controles capazes de assegurar rastreabilidade e confiabilidade ao longo de todo o ciclo de vida dos dados regulatórios.
Na prática, a expectativa do Banco Central é que, até 31 de dezembro de 2026, as instituições financeiras sejam capazes de demonstrar que possuem mecanismos estruturados para garantir a qualidade das informações utilizadas em processos regulatórios.
A partir da análise da regulamentação e de experiências recentes em projetos de governança de dados no setor financeiro, a BIP entende que o regulador espera observar um conjunto consistente de práticas organizacionais, tecnológicas e de controle.
Expectativas do regulador para a adequação à RC 18/2025
| Pilar | O que o Banco Central espera observar |
| Política de Qualidade da Informação | Documento formal, segregado e aprovado pelo Conselho de Administração, estabelecendo diretrizes claras para gestão da qualidade dos dados regulatórios. |
| Governança Institucional | Responsabilidades definidas para a alta administração, com supervisão da qualidade da informação e accountability sobre os dados enviados ao regulador. |
| Infraestrutura Tecnológica | Ferramentas e mecanismos capazes de validar dados, detectar inconsistências e monitorar continuamente a qualidade das informações utilizadas nos reportes regulatórios. |
| Documentação Estruturada | Formalização de regras de negócio, fluxos de dados e dicionários de dados que permitam compreender e rastrear a origem das informações. |
| Testes de Qualidade | Aplicação periódica de testes operacionais relacionados às 12 dimensões de qualidade definidas pela regulamentação. |
| Monitoramento e Reporte | Elaboração de relatório semestral consolidado sobre qualidade da informação regulatória. |
| Tratamento de Inconsistências | Implementação de medidas saneadoras para correção de problemas identificados na qualidade dos dados. |
| Auditoria e Melhoria Contínua | Avaliações periódicas conduzidas por auditoria interna, acompanhadas da implementação de melhorias nos controles e processos. |
Experiência prática em governança e qualidade da informação
A implementação das exigências da RC 18/2025 envolve a combinação de governança institucional, estrutura tecnológica e integração entre diferentes áreas da organização. Nesse contexto, iniciativas de governança e qualidade de dados tornam-se fundamentais para garantir a confiabilidade das informações utilizadas em processos regulatórios.
A BIP possui ampla experiência apoiando instituições financeiras em projetos relacionados à qualidade e governança de dados, incluindo a definição de estruturas organizacionais com papéis e responsabilidades claros, o desenvolvimento de políticas e diretrizes de qualidade da informação, a criação de artefatos de governança e a implementação de mecanismos de monitoramento contínuo da qualidade dos dados utilizados em processos críticos.
Essas iniciativas contribuem para fortalecer controles sobre dados utilizados em relatórios gerenciais e regulatórios, aumentando a confiabilidade e a rastreabilidade das informações nas organizações.
Governança de dados em serviços financeiros ligados à indústria automotiva
Em um projeto conduzido para uma instituição financeira vinculada ao setor automotivo, o crescimento acelerado no uso de dados para relatórios contábeis, gerenciais e regulatórios evidenciou limitações na estrutura de governança existente. O ambiente apresentava conceitos de dados não padronizados, baixa rastreabilidade e ausência de controles consistentes de qualidade da informação.
Para enfrentar esse cenário, a BIP apoiou a instituição em uma iniciativa de estruturação de governança de dados, que incluiu:
- diagnóstico de maturidade em governança de dados baseado em frameworks de mercado
- workshops com áreas responsáveis pelos principais domínios de dados
- definição de modelo operacional de governança com papéis e responsabilidades
- estabelecimento de diretrizes de qualidade da informação e princípios de arquitetura de dados
Como resultado, a organização passou a contar com maior visibilidade sobre riscos relacionados aos dados financeiros, além de um roadmap estruturado para evolução da governança e padronização das métricas utilizadas em relatórios e análises.
Estruturação de governança de dados em instituição da indústria financeira
Em outro projeto conduzido para uma organização da indústria financeira com forte dependência de dados para relatórios regulatórios e de controle interno, a instituição enfrentava baixa maturidade em governança de dados. A ausência de políticas formais, papéis e responsabilidades definidos e uma arquitetura de dados descentralizada geravam inconsistências em indicadores e limitações na rastreabilidade das informações.
Nesse contexto, a BIP apoiou a organização na condução de um diagnóstico estruturado de maturidade em governança de dados e na definição de diretrizes para evolução do modelo de gestão da informação, incluindo:
- avaliação de dimensões como arquitetura de dados, metadados e qualidade da informação
- definição de políticas e procedimentos de governança de dados
- criação de glossário corporativo e estrutura de dicionário de dados
- proposta de fóruns de decisão e responsabilidades para gestão da informação
A iniciativa permitiu estabelecer um direcionamento claro para implantação de um modelo estruturado de governança de dados, criando bases para melhoria da qualidade e confiabilidade das informações utilizadas em processos analíticos e regulatórios.
Considerações finais
A Resolução Conjunta nº 18/2025 estabelece critérios objetivos para a gestão da qualidade da informação regulatória e reforça que a responsabilidade pela consistência dos dados não é apenas técnica, mas institucional.
A adequação à norma exige que as instituições financeiras avancem na estruturação de políticas formais de qualidade da informação, no fortalecimento da governança de dados e na implementação de mecanismos capazes de assegurar rastreabilidade, controle e monitoramento contínuo das informações utilizadas em processos regulatórios.
Mais do que atender a uma exigência regulatória, a RC 18/2025 reforça a importância de estruturas consistentes de governança e qualidade da informação para garantir a confiabilidade dos dados utilizados nos relatórios enviados ao Banco Central.
Na BIP, apoiamos instituições financeiras em iniciativas de governança e qualidade de dados, contribuindo para fortalecer controles sobre informações críticas e apoiar a evolução da gestão da informação nas organizações. Fale com nossos especialistas.








