A histórica lacuna entre aspectos financeiros e de sustentabilidade das empresas está, por fim, em vias de ser preenchida. As Normas Internacionais de Relato Financeiro (IFRS) S1 e S2, emitidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), representam um marco na jornada das empresas em direção à transparência e à sustentabilidade e vêm se tornando o principal padrão de reporte corporativo sobre dados e iniciativas relacionados à sustentabilidade. Apesar dos significativos avanços ao longo das últimas décadas para incorporação da agenda da sustentabilidade nas empresas e para a divulgação das ações relacionadas aos stakeholders, os relatos ainda se mostram pulverizados, incompletos e de difícil interpretação para os investidores.
Neste contexto, as normas IFRS S1 e S2 foram desenvolvidas pensando em oferecer uma metodologia única e abrangente, estabelecendo a ponte entre os padrões, diretrizes e especificações de reporte adotados no mercado, de forma a harmonizar com outras normas existentes, e não de substituí-las. As IFRS S1 e S2 foram construídas sobre os quatro pilares fundamentais da TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures) – Governança, Estratégia, Gestão de Riscos, Métricas e Objetivos – para a divulgação de informações financeiras relacionadas ao clima, ao mesmo tempo em que incorpora estrutura do <IR> (Relato Integrado). As normas também fomentam a divulgação de indicadores ESG específicos conforme os setores de indústrias das normas SASB (Sustainability Accounting Standards Board), e a contabilização de emissões de gases de efeito estufa de acordo com o GHG Protocol.
Publicadas em 26 de junho de 2023, para adoção voluntária a partir de 2024, as normas IFRS S1 e S2 oferecem um roteiro para as organizações divulgarem informações relevantes sobre riscos e oportunidades de sustentabilidade e da mudança do clima, permitindo que stakeholders avaliem com maior clareza o impacto desses fatores na função e valor da empresa, influenciando decisões de investimento e financiamento. Assim, estabelecem um arcabouço robusto para a divulgação de informações relevantes sobre os principais aspectos da sustentabilidade, permitindo que stakeholders avaliem o desempenho das empresas de forma consistente, comparável e verificável.
IFRS S1 – Requisitos gerais para divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade
Para estar em conformidade com a IFRS S1, as organizações devem identificar e divulgar informações relevantes para a avaliação dos riscos e oportunidades de sustentabilidade, incluindo aspectos sociais, ambientais e de governança. Para isso, é primordial a identificação de temas materiais para o negócio, direcionando às questões de maior relevância para a empresa e seus stakeholders. Além disso, devem avaliar como suas atividades impactam a sustentabilidade no curto, médio e longo prazo, como a sustentabilidade é incorporada em suas estratégias, modelos de negócio e tomadas de decisão, e como as práticas relacionadas à sustentabilidade impactam os resultados financeiros da empresa.
Diferentemente de demais conceitos de materialidade empregados amplamente, para as normas IFRS a materialidade a ser avaliada para os relatos da empresa é a financeira, ou seja, informações que se ocultadas ou omitidas podem influenciar razoavelmente as tomadas de decisão do mercado de capitais. Portanto, como primeiro passo para conformidade com as normas, deve-se dedicar atenção à sensibilização de stakeholders e à realização de um diagnóstico atual quantos aos temas materiais para a empresa.
O conteúdo do reporte seguirá, como apresentado, os pilares fundamentais importados da TCFD. Para os temas materiais identificados, será necessário relatar:
- Governança: A estrutura e os processos que uma organização usa para dirigir e controlar suas operações e atividades, como as decisões são tomadas e quem tem autoridade para tomar essas decisões, influenciando em aspectos relacionados à sustentabilidade.
- Estratégia: A abordagem para gestão de riscos financeiros relacionados a aspectos de sustentabilidade, o planejamento para alcançar objetivos e a adaptação às mudanças nas condições do mercado e do ambiente.
- Gestão de Riscos: Aborda como a organização identifica, avalia e gerencia os riscos associados à sustentabilidade. Considera tanto os riscos que podem afetar negativamente a organização quanto as oportunidades que podem surgir a partir desses riscos.
- Métricas e Objetivos: Refere-se às medidas quantitativas que a organização usa para avaliar seu desempenho em relação à sustentabilidade, os objetivos que estabeleceu para si mesma e como planeja alcançá-los.
IFRS S2 – Divulgações relacionadas ao clima
Adicionalmente à IFRS S1, a segunda norma emitida pelo ISSB se concentra em divulgações e orientações adicionais sobre os riscos e oportunidades relacionados ao clima. Ela visa estabelecer requisitos de divulgação consistentes, comparáveis e transparentes para informações relacionadas às emissões de gases de efeito estufa (GEE) e outras métricas relacionadas a riscos climáticos que impactam a saúde financeira das empresas.
A IFRS S2 também se orienta a partir dos pilares da TCFD, assim como a IFRS S1, reforçando a importância e os benefícios quanto à consistência e clareza do relato em se adotar, mesmo em período voluntário, ambas as normas concomitantemente, elaborando um reporte único.
O detalhamento fornecido no reporte deverá contemplar:
- Governança: A estrutura de governança que a organização possui em relação aos riscos e oportunidades climáticas. A governança define como a liderança da empresa gerencia e supervisiona as questões relacionadas ao clima.
- Estratégia: Os impactos reais e potenciais dos riscos e oportunidades climáticas nos negócios, estratégia e planejamento financeiro da organização. A estratégia ajuda a entender como o clima afeta as operações e planos futuros da empresa.
- Gestão de Risco: Refere-se a como a organização identifica, avalia e gerencia os riscos relacionados ao clima. A gestão de riscos é essencial para mitigar os impactos adversos das mudanças climáticas. Nesta etapa é importante considerar cenários futuros de operação da empresa sobre condições climáticas adversas e os respectivos riscos físicos e de transição, explicando como a empresa monitora e se posiciona em relação aos riscos.
- Métricas e Objetivos: Envolve as métricas e metas usadas para avaliar e gerenciar os riscos e oportunidades climáticas relevantes para a organização. As métricas e metas fornecem uma base quantitativa para medir o progresso e o desempenho em relação às questões climáticas.
Importância das normas IFRS S1 e S2 para as empresas
A atenção às normas do ISSB cresce desde sua publicação, e encontra-se atualmente em um momento crucial. As normas estão alinhadas às principais diretrizes e agendas ESG globais, estão se desenvolvendo conforme as tendências de mercado, e vêm consolidando-se em novas leis e regulações locais. O Brasil foi o primeiro país a incorporar as normas IFRS S1 e S2 em sua estrutura regulatória, através da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), adotando-as como padrão de relato de sustentabilidade. O órgão publicou a Resolução CVM nº 193, em 20 de outubro de 2023, que trata da elaboração e divulgação do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, com base no padrão das normas emitidas pelo ISSB/IFRS. Adicionalmente, a adoção das normas IFRS de sustentabilidade no Brasil foi endossada pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC), que publicou, em 25 de outubro de 2023, a Resolução CFC nº 1.710, que insere estes padrões de reporte de informações sobre a sustentabilidade e de asseguração de divulgação das mesmas nas Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC).
Para as companhias abertas, a adoção das normas IFRS S1 e S2 passa de voluntária para obrigatória a partir de 1º de janeiro de 2026, incluindo asseguração razoável dos relatos por auditor externo. Durante o período voluntário, as companhias abertas, securitizadoras e fundos de investimento que optarem por adotar as normas do ISSB precisam seguir a Resolução CVM 193.
Cabe ressaltar que, o Banco Central do Brasil adota os critérios por meio da Resolução CMN n° 5.185 de 21/11/2024, que altera a Resolução nº 4.818, de 29 de maio de 2020, que consolida os critérios gerais para elaboração e divulgação de demonstrações financeiras individuais e consolidadas pelas instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil. Destacamos que existem exceções para aplicação a partir do exercício social de 2028.
A adoção das normas ainda em período voluntário é recomendada, permitindo que as empresas tenham tempo hábil para familiarização e adaptação de sua metodologia de coleta e divulgação de informações, bem como tenham a oportunidade de captar feedbacks de seus stakeholders e aplicar metodologias de melhoria contínua para a continuidade dos relatos em acordo às normas do ISSB.
A relevância das IFRS S1 e S2 para a sociedade e as empresas é multifacetada. Para os investidores, a norma oferece ferramentas valiosas para avaliar as empresas sob a ótica da sustentabilidade e da mudança climática, considerando os impactos climáticos em suas operações e ativos, bem como a conexão com as demonstrações financeiras. Essa perspectiva holística permite decisões de investimento mais conscientes e responsáveis, impulsionando a adoção de práticas sustentáveis pelas empresas.
No âmbito social, a IFRS S1 contribui para a transparência e a accountability das empresas em relação aos seus impactos socioambientais. Ao fornecer informações padronizadas e comparáveis sobre sustentabilidade, a norma facilita o monitoramento do desempenho das empresas nesse quesito, permitindo que stakeholders cobrem e exijam práticas mais responsáveis. Nesse contexto, mesmo para empresas fora do escopo da Resolução CVM 193, a atenção à temática é aconselhada.
Desafios e oportunidades
Embora as expectativas em torno das IFRS S1 e S2 sejam promissoras, suas implementações também apresentam desafios significativos para as empresas. A principal dificuldade reside na exigência de métricas avaliando não somente o momento atual e o reporte de dados robustos relacionados à sustentabilidade e ao clima, mas também sobre o entendimento da estratégia da empresa e os impactos das mudanças climáticas em seu resultado no longo prazo.
Para superar esse obstáculo, as empresas devem investir em infraestrutura e processos para captação dos dados, além de desenvolver estudos relacionando a estratégia com os riscos ambientais, adotando medidas consistentes de coleta, análise, verificação e reporte de dados. Além disso, deve-se prever a elaboração do reporte de acordo com os requisitos e especificações das normas, adaptando à comparabilidade com dados reportados em relatórios anteriores e atendendo expectativas das partes interessadas.
Apesar dos desafios, as normas de sustentabilidade do ISSB representam uma oportunidade única para as empresas se destacarem como líderes em sustentabilidade e para realizar impactos positivos na sociedade e no meio ambiente. Ao abraçar as normas e fornecer relatórios abrangentes e transparentes, as empresas podem reconhecer diversos benefícios, como:
- Transparência Aprimorada: A maior clareza das divulgações ESG permite que as empresas demonstrem seu compromisso com a sustentabilidade e seus impactos socioambientais, o que pode fortalecer a confiança de seus investidores, consumidores, reguladores, funcionários e outras partes interessadas. A adoção voluntária antecipada das normas ISSB, adicionalmente, pode intensificar este potencial.
- Integração entre a Estratégia e os Riscos Climáticos: Conectar os riscos climáticos com a formulação da estratégia empresarial permite uma abordagem mais resiliente e adaptativa frente às transformações ambientais e regulatórias. Ao incorporar esses riscos de forma estruturada, as empresas conseguem alinhar seus objetivos de longo prazo às exigências de um mercado em transição para uma economia de baixo carbono. Esse alinhamento estratégico não apenas reduz vulnerabilidades operacionais e financeiras, como também pode gerar vantagem competitiva, sinalizando responsabilidade e visão de futuro a investidores, reguladores e demais partes interessadas.
- Atração de Investidores: Com o aumento do interesse dos investidores em empresas que adotam práticas sustentáveis, a conformidade com as IFRS S1 e S2 torna a empresa mais atraente e garante ao investidor informações confiáveis sobre as práticas e o desempenho ESG da empresa, facilitando o acesso a capital e melhores condições de financiamento.
- Gestão de riscos: A metodologia e a estrutura das normas do ISSB auxiliam as empresas na identificação, avaliação e gerenciamento de riscos relacionados à sustentabilidade, como riscos climáticos, ambientais, sociais e de governança. Essa abordagem proativa permite que as empresas tomem decisões mais conscientes e mitiguem potenciais impactos negativos em seus negócios. Isso inclui riscos físicos, como eventos climáticos extremos, e riscos de transição, como mudanças regulatórias e de mercado, permitindo uma melhor preparação e mitigação desses riscos.
- Reputação e Marca: A contribuição à agenda climática e à governança corporativa, através da adoção de padrões rigorosos e estruturados de comunicação sobre os riscos e impactos de suas atividades pode melhorar a reputação de uma empresa, o que pode levar a benefícios como aumentar a lealdade do cliente, melhorar os resultados operacionais, atrair novos clientes e diferenciar a empresa de seus concorrentes.
- Engajamento e Retenção de Talentos: Funcionários e candidatos a emprego estão cada vez mais interessados em trabalhar para empresas que demonstram responsabilidade social e ambiental. A conformidade com as IFRS S1 e S2 pode ajudar a criar um ambiente de trabalho motivador e alinhado com valores dos stakeholders.
- Melhoria da Eficiência Operacional: A adoção de práticas sustentáveis pode levar à melhoria da eficiência operacional, reduzindo desperdícios, custos e consumo de recursos. Aa metodologia apresentada pelas normas do ISSB e o interesse em alcançar a conformidade pode incentivar as empresas a monitorarem e melhorarem continuamente seu desempenho ESG, resultando em operações mais eficientes e sustentáveis.
- Inovação: A agenda ESG impulsiona a busca por melhorias e transformações no negócio, a adoção de novas tecnologias e a planejamento estratégico. Isso pode levar ao desenvolvimento de soluções mais eficientes e ecologicamente corretas, ampliando as oportunidades de mercado.
- Conformidade regulatória: Os principais órgãos reguladores brasileiros e internacionais já se posicionaram sobre o tema, e a tendência de adoção de questões ESG como requisitos para a operação é crescente. Portanto, a adoção dessas normas pode ajudar as empresas a se prepararem para futuros requisitos regulatórios, minimizando o risco de penalidades e sanções.
Como a BIP pode ajudar?
Para se adequar às normas IFRS S1 e S2, as empresas devem seguir uma série de etapas e práticas. Como consultoria de gestão, a BIP pode ajudar sua empresa nessa jornada de várias maneiras:
- Capacitação e Treinamento: O primeiro passo crucial na jornada das normas de sustentabilidade IFRS reside no conhecimento da norma e seus requisitos, o que inclui a compreensão dos quatro pilares da norma: Governança, Estratégia, Gestão de Riscos e Métricas e Objetivos, bem como as especificações de reporte. Fornecemos treinamento às lideranças e aos funcionários de sua empresa sobre as IFRS S1 e S2, bem como suas implicações.
- Avaliação de Conformidade: Realizamos um assessment inicial para determinar o nível atual de conformidade de sua empresa com as IFRS S1 e S2, identificando quais informações de sustentabilidade já estão sendo coletadas e divulgadas, o que ainda precisa ser incorporado nos relatórios financeiros. Após a avaliação inicial, podemos identificar as lacunas que precisam ser preenchidas para alcançar a conformidade, e fornecemos recomendações e planos de ação para adequação.
- Coleta e Análise de Dados: Auxiliamos na coleta, tratamento, análise e visualização de dados relacionados à sustentabilidade, podendo envolver a implementação de novos sistemas de coleta ou a modificação dos existentes.
- Avaliação de Materialidade: A IFRS S1 exige que as empresas identifiquem e divulguem informações relevantes para a avaliação dos riscos, oportunidades e impactos financeiros de sustentabilidade dentro de suas operações. A BIP pode conduzir o processo de levantamento, identificação e avaliação de temas materiais em acordo à metodologia necessária.
- Engajamento de Stakeholders: Envolver e gerir as partes interessadas internas e externas, incluindo investidores, empregados, fornecedores, e outros stakeholders, para entender suas expectativas e preocupações em relação às divulgações de sustentabilidade, garantindo alinhamento em todas as etapas do processo.
- Inovação e Desenvolvimento de Estratégias: Ajudamos a empresa a desenvolver estratégias para preencher as lacunas identificadas, incluindo cronogramas, recursos necessários e responsabilidades, para que possam alcançar a conformidade com as IFRS S1 e S2.
- Análise de Cenários de Risco: Realizamos modelagens matemáticas para a construção de cenários futuros, auxiliando na identificação, avaliação e interpretação de potenciais riscos sob diversas condições de incerteza. Apesar da análise de cenários não ser obrigatória, é uma boa prática altamente recomendada, fornecendo maior robustez à governança corporativa e indicando maior resiliência climática.
- Desenvolvimento de Políticas, Procedimentos e Processos: Contribuímos no desenvolvimento ou revisão de políticas internas de sustentabilidade que estejam alinhadas com a norma. Auxiliamos também na implementação de novos processos necessários para coleta e gestão adequada das informações e indicadores ESG, que atendam às exigências dos órgãos reguladores e de auditores independentes.
- Integração e Otimização de Sistemas e Processos: Auxiliamos na implementação de tecnologias de facilitação para coletar, analisar e relatar dados de sustentabilidade de acordo com as IFRS S1 e S2. Desenvolvemos ferramentas de apoio na gestão de dados e otimizamos a integração de sistemas existentes.
- Elaboração e Integração de Relatórios: Auxiliamos sua empresa na concepção, redação e revisão de relatórios de sustentabilidade que estejam em conformidade com as IFRS S1 e S2, integrando essas informações aos relatórios financeiros anuais. É importante garantir que as divulgações de sustentabilidade sejam comunicadas de maneira clara, transparente e compreensível para os investidores e outras partes interessadas, de forma harmoniosa com os relatos financeiros e incluindo explicações sobre como as informações de sustentabilidade afetam o desempenho financeiro e as perspectivas futuras da empresa.
- Monitoramento e Melhoria Contínua: As empresas devem monitorar continuamente suas operações e atualizar suas divulgações conforme necessário para garantir que continuem a cumprir os requisitos das IFRS S1 e S2, buscando progresso no seu desempenho. Auxiliamos no estabelecimento de um processo de melhoria contínua para revisar e aprimorar regularmente as iniciativas de sustentabilidade e a divulgação das mesmas, mantendo-se atualizado com as melhores práticas e mudanças nos padrões de sustentabilidade.
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